Em maio de 1966, o clima nos bastidores de Doctor Who era de mudança. Desde o arco 24, a equipe de produção passava por... REVIEW CLÁSSICA: Arco 026 – The Savages

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Em maio de 1966, o clima nos bastidores de Doctor Who era de mudança. Desde o arco 24, a equipe de produção passava por instabilidades, e a consolidação do novo time (sob a liderança do produtor Innes Lloyd) aconteceu dois arcos depois, exatamente em The Savages. A história levou as modificações para as telas, entre elas, a extinção de nomes individuais para cada episódio, adotando apenas os nomes dos arcos, e a despedida do personagem Steven (Peter Purves).

Parece que essa “atmosfera” que mesclava ideias novas com o que já estava consolidado no programa também foi refletida no enredo: ao invés de acontecer no passado ou num ambiente futurista, a história se passa em um planeta muito parecido com a Terra, mas que mistura as duas realidades.  Nele, o Doctor, Steven e Dodo encontram, de um lado, uma população selvagem, nos moldes de algumas tribos pré-históricas, e do outro, uma cidade com tecnologias muito adiantadas. Enquanto os membros da tribo são hostis com os viajantes, os habitantes da cidade já haviam conseguido prever a chegada do Senhor do Tempo, através de tecnologia, e o aguardavam ansiosamente.  Essas primeiras impressões são desfeitas logo que o ponto principal da trama é revelado.

A problemática gira em torno da exploração das pessoas tidas como selvagens pelo povo civilizado, que desenvolveu uma máquina para extrair energia vital de um humano e transferir para outro. Poderia ser só sobre ficção científica, mas a ideia fica ainda melhor quando pensamos no contexto em que ela foi ao ar. No final da década de 1960, o debate em torno de questões raciais estava aguçado em muitas partes do mundo. A África do Sul ainda sofria com o apartheid, o movimento pelos direitos civis dos negros ainda reverberava nos Estados Unidos e o regime nazista alemão tinha acabado há pouco mais de 20 anos, sem nunca ter deixado completamente de ser uma ameaça. Embora The Savages use um enredo bem diferente pra falar sobre o tema, é impossível não relacionar quando lembramos, por exemplo, as experiências científicas praticadas por médicos nazistas com seus prisioneiros considerados de “raças inferiores”.

Além do plot interessante, o desenrolar dos acontecimentos conseguiu fazer jus o tema. Mesmo com todos os episódios reconstruídos, o arco entrega momentos de ação e suspense. Vale ressaltar a construção dos personagens fora do time principal. Enquanto na maioria das histórias dessa fase da série, eles são poucos desenvolvidos, nesse arco alguns ganharam comportamentos e conflitos um pouco mais densos, embora outros continuaram com participações óbvias. Nas atuações, Frederick Jaeger, que interpreta Jano, o líder da cidade, merece destaque. Para as cenas em que precisou imitar os trejeitos do Doctor, ele recebeu orientação do próprio Hartnell e deu conta do recado (pelo menos até onde conseguimos acompanhar pela reconstrução).

Despedida-Steven

Quanto ao desfecho, o enredo poderia ter sido um pouco melhor. O final não é ruim, mas a solução parece um tanto simplista para um problema que envolve questões arraigadas na cultura dos dois povos. E, por falar em final, essa história traz a despedida de Steven Taylor do time TARDIS. Confesso que eu tinha problemas com Steven quando ele apareceu. Pra mim, ele era impulsivo, quase sempre tentava resolver as coisas com a força bruta e muitas vezes era chato mesmo. Mas com o tempo, ele se tornou mais sensato, inteligente e conseguiu ganhar meu coração. Quem teve a tarefa de representar na tela a nossa tristeza pela saída do personagem foi principalmente Dodo. A cena entre eles se torna mais emocionante quando sabemos que Steven reaparece em um audiodrama chamado The War to End All Wars (lançado em 2014), e sua filha caçula e favorita tem o mesmo nome da companion.

Com isso, o Doctor e Dodo seguem sozinhos para a aventura que finaliza o terceiro ano da série clássica. Mas isso é assunto para a próxima review, com o arco The War Machines. Se você ainda não assistiu ou quer rever The Savages, ele está disponível aqui.

Denise Ferreira

Jornalista apaixonada por histórias e personagens fictícios, principalmente se eles viajarem pelo espaço a bordo de uma cabine azul.

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