Como Barbara Wright, Jacqueline Smith (outrora Hill) foi uma das primeiras ocupantes da TARDIS, após seguir Susan Foreman ao ferro velho na Totter’s Lane...

Como Barbara Wright, Jacqueline Smith (outrora Hill) foi uma das primeiras ocupantes da TARDIS, após seguir Susan Foreman ao ferro velho na Totter’s Lane em Novembro de 1963. Nessa entrevista de outubro de 1985 a “Doctor Who Magazine”, ela fala sobre conseguir o papel numa festa, sua época no programa e sua volta em um papel diferente no arco do Quarto Doctor, “Meglos”

“Certa noite, eu estava numa festa e os mesmos amigos de sempre estavam lá. Eu já conhecia socialmente Verity Lambert desde que ela entrou na ABC (canal de TV), onde eu e meu marido já havíamos trabalhado. Ela era uma das protegidas do Sydney Newman, e por esse motivo ela foi transferida com ele para a BBC, onde a chamaram para ser produtora. De qualquer forma, essa festa aconteceu na hora certa para mim, porque Verity estava na fase de escalar os atores principais para seu novo programa de televisão, ‘Doctor Who’. Falamos sobre isso, e pouco tempo depois, ela me ofereceu o papel de Barbara Wright, o qual eu fiquei muito feliz em aceitar. Por causa desse bom começo, Verity e eu sempre nos damos bem. Fazer aquela quantidade de episódios por ano aliava o fardo de fazer tantos episódios no geral.

“Acho que quase todo mundo, incluindo a BBC, subestimou o apelo de ‘Doctor Who’. Tínhamos contratos até longos, que nos prendiam por um ano, mas haviam tantas cláusulas onde eles poderiam largar você ou a série, ou ambos, quando quisessem. Então na realidade, eles tinham o melhor dos dois mundos. Olhando para a durabilidade do programa agora, é um fenômeno incrível, mas a ideia era excelente, especialmente para a época. Acho que ele conseguiu durar tanto porque tem a habilidade de mudar e se desenvolver, nunca é a mesma coisa, então nada se torna entediante ou repetitivo.

“Perto do fim de uma temporada, algum de nós começava a ficar muito cansado, mas eles geralmente tentavam escrever os roteiros para ajudar você, então numa semana Carole Ann ou Bill Russell teriam mais coisas para fazer, e em alguns momentos, eles até te deixavam de fora por algumas semanas, então podíamos sair de folga. Ficávamos tão próximos um do outro, naqueles estúdios minúsculos, que um temperamento ruim teria sido desastroso. Eu me dava muito bem com o William Russell. Ele atuava de uma forma parecida com a minha e gostava de trabalhar com o mínimo de barulho. Trabalhei com ele depois daquela época na França, e espero que isso aconteça de novo em breve.”

“Carole Ann Ford e eu tínhamos uma relação muito boa, mas nós não nos mantemos em contato depois que ela saiu da série. Ela estava muito ocupada sendo mãe e nossos caminhos nunca mais se cruzaram. De qualquer forma, a vi de novo numa convenção de ‘Doctor Who’ e gostei muito disso. Ela é bem famosa nessas convenções, enquanto eu só fui em uma. São bem incríveis. A quantidade de pessoas que apreciam o que nós fizemos há tantos anos num pequeno estúdio em preto e branco realmente me impressiona. Acho que isso é único.”

“E tudo isso se deve ao sucesso do Bill Hartnell como o Doctor, devo pensar, e sempre nos demos bem. Ele ficava muito irritado quando achava que as coisas estavam sendo feitas do jeito errado, mas se importava tanto com o programa e acho que era só ele demonstrando isso. Ele particularmente aproveitou a volta à infância, e eu me afeiçoei muito a ele. Acho que ele ficou triste quando teve que sair. Eu sei que eu fiquei.”

“No começo eu só sabia que minha personagem era uma professora de história muito inteligente e que eu teria que representar o ponto de vista da Terra quando voltássemos no tempo e fizéssemos alguns arcos no passado. Achei isso muito fácil, pois eu gostava de história e os episódios que tratavam da matéria me agradavam. Todo o resto eu mesma que fiz, e isso quis dizer falar com Verity ou com o diretor. Acho que algumas vezes quando eu dizia ‘Barbara não diria ou faria isso’, e eles eram muito bondosos e me ouviam nessas horas porque eu conhecia o personagem melhor que todos.

“Tive uma participação e tanto em ‘The Daleks’, e numa série como ‘Doctor Who’, normalmente lembram disso. Estávamos completamente fascinados com os Daleks, se tornou muito fácil acreditar quando atuávamos diante daquelas coisas, e isso ajudou a fazer a coisa mais emocionante e bem feita. Me lembro da Carole Ann Ford levando sua filhinha para os estúdios certo dia, e a menina ficou experimentando o traje de Dalek. Eles tem aquele apelo irresistível, que faz você querer usar. Gostei de outros também – os Sensorites eram estranhos e os Mechanoids eram interessantes também, mas no geral, tem que ser os Daleks. Às vezes alguém recusava a folga para fazer um arco com Daleks, porque era muito divertido.

“A outra razão para lembrar desse episódio é muito triste. Nós estávamos no estúdio na noite em que a notícia do assassinato do Presidente Kennedy se espalhou. Foi devastador e todos ficaram muito, muito tristes. Não acho, olhando para trás, que atualmente alguém entenderia tudo que Kennedy significava para o mundo ocidental, e quando ele foi morto a última coisa que as pessoas queriam era atuar dentro de uma fantasia num estúdio fechado. Não acho que alguém ficou para trás depois da gravação para o drink de sempre.

“Eu sempre preferi os arcos históricos, porque tinha mais participação neles. Nos de ficção científica, eram monstros e personagens estranhos que costumavam aparecer mais, e todas as garotas normalmente só tinham que fazer cara de assustada e se perder uma ou duas vezes. Eu adorava os figurinos dos episódios históricos, e eram muito mais coloridos para nós porque os cenários eram muito bonitos.

“Acho que os que mais gostei foram ‘The Aztecs’, e o sobre Cruzadas. Em ‘The Aztecs’ eu usei um cocar maravilhoso, que era muito difícil de equilibrar, mas ficou soberbo, me senti parte da realeza. A estória em si era muito inteligente e era uma época incrível. Suponho que gostei mais desse do que de todos os outros porque é o que Barbara tem mais importância na estória. Gostei de ‘The Crusades’ por motivos parecidos, e também porque gostei muito de trabalhar com o Douglas Camfield. ‘The Romans’ também foi muito divertido de se fazer. Tinha o Derek Francis. Ele me fazia rir o tempo todo e todos tivemos a chance de fazer ‘Doctor Who’ num tom mais cômico, o que foi divertido.

“Filmar ‘The Dalek Invasion of Earth’ nas locações foi o que você pode chamar de ‘quantidade massiva de gravação em locação’ e a locação em si era na esquina dos estúdios em que gravávamos em Hammersmith. Tínhamos pouquíssimo tempo para gravar, somente cerca de uma tomada, então era tão ruim quanto trabalhar no estúdio. Lembro-me claramente das filmagens das sequências pelos marcos famosos de Londres, porque os filmávamos primeiro de manhã, assim que o sol nascia – e em domingos também! Isso era ainda mais penoso porque tínhamos que correr empurrando uma cadeira de rodas, o que pouco tempo depois perdeu sua importância como algo novo.

“Com certeza não me convidaram para fazer o filme “Dr. Who and the Daleks”, porque eu não era um nome que atraífglasse a atenção do público, espero, porque já ocupava todo o meu tempo fazendo a própria série. Nunca tive muito tempo de me assistir no programa, mas obviamente, uma vez ou outra via. Não vejo já há um bom tempo, e além disso, é um programa praticamente diferente agora, mudou tanto. Ficção-Científica não faz muito o meu gosto.

“Algo bom sobre Barbara era que ela era mais velha que a maioria das mulheres desde então, os escritores hesitavam mais ao fazê-la boba, ou gritar demais. Isso ficava a cargo da Carole Ann Ford, um dos motivos para ela ter saído do programa antes de mim e do Bill Russell. Naturalmente, Maureen O’Brien se sentiu muito nervosa quando chegou, mas ninguém foi desagradável e essa sensação inicial logo passou. Acho que nos dávamos muito bem, mas foi estranho não ter a Carole no começo. Maureen não gostou realmente do seu tempo na série, mas isso porque ela herdou o papel da Carole de gritar o tempo todo, e para minha sorte, continuei com o melhor dos dois papéis femininos. Foi o primeiro grande papel dela na TV e acho que foi um começo rude.

“William Russell e eu decidimos sair praticamente juntos. Havíamos feito já dois anos, o que foi um esforço nosso, e não havia muito mais a se fazer. Já tínhamos feito tudo que queríamos no programa e sentimos, e acho que Verity concordou conosco, que era hora da série tentar fazer algo novo. Em relação a questão de sairmos juntos, pareceu vir na hora certa para ambos. Acho que sempre houve a sensação de que Ian e Barbara tinham um sutil lado romântico em seu relacionamento e eles, assim como chegaram, deveriam voltar juntos para a Londres deles. Souberam nos tirar bem. Levaram-nos para o centro de Londres para gravar algumas tomadas de nós voltando para casa, o que foi mostrado no fim do episódio. A última cena gravada, nós voltamos, adivinha só, o glamoroso estúdio de Hammersmith.

“Fizemos ‘Meglos’ em estúdios diferentes, e claro, a televisão avançou muito e toda a parte técnica era completamente diferente. Os efeitos especiais dominavam muito mais. Foi gravado completamente fora de ordem e não havia ninguém trabalhando na estória que pudesse lembrar coisas tão antigas quanto eu lembrava – o que foi uma experiência . Mas eu gostei muito, principalmente porque meu personagem era completamente diferente da calma e emotiva Barbara. Foi uma feliz reunião com um programa que só é o mesmo por causa do nome.”

 

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